Dor do Crescimento em Crianças: Guia Médico para Pais e Cuidadores

ka.aguilar • 1 de junho de 2026

Se o seu filho costuma acordar chorando à noite queixando-se de incômodo nas perninhas, você não está sozinho. A chamada dor de crescimento em crianças é uma das queixas mais frequentes nos consultórios de pediatria e ortopedia infantil.

Embora o nome sugira uma relação direta com o estirão infantil, a ciência mostra que o processo de crescer, por si só, não dói. Trata-se de uma condição benigna, mas que gera muitas dúvidas e ansiedade nos pais.

Neste guia, baseado nas principais evidências científicas atuais, explicamos como identificar os sintomas, as possíveis causas e as melhores formas de aliviar o desconforto do seu filho.

O que é a dor de crescimento e quem ela afeta?

A dor de crescimento é uma síndrome dolorosa benigna e recorrente que afeta os membros inferiores de crianças saudáveis. Sua causa ainda não está totalmente esclarecida, mas acredita-se que seja uma combinação de fatores musculares e neurobiológicos.


  • Idade comum: Geralmente surge entre os 3 e 12 anos, com um pico de incidência entre os 4 e 5 anos.
  • Prevalência: Estudos apontam que até um terço (33%) das crianças em todo o mundo apresentarão episódios dessa dor em algum momento da infância.
  • Gênero: Afeta meninos e meninas na mesma proporção.
  • Fator Genético: Existe uma tendência familiar. Cerca de 20% das crianças com a condição possuem pais ou irmãos que também sofreram com o problema.
  • O Mito do Crescimento: Apesar do termo popular, não há associação comprovada entre a dor e os períodos de crescimento rápido.


Sintomas Típicos e Apresentação Clínica

  • Localização: dor bilateral nos membros inferiores (80% dos casos), afetando coxas, panturrilhas e região poplítea. A dor é muscular, não articular
  • Padrão temporal: ocorrência no final da tarde ou à noite, podendo causar despertar noturno, mas a criança acorda bem no dia seguinte
  • Relação com atividade: o desconforto não impede a criança de correr ou brincar e não claudicação (mancar)
  • Exame físico: completamente normal - não há inchaço (edema), vermelhidão (eritema), calor local ou limitação de movimentos

Diagnóstico e Diagnóstico Diferencial

O diagnóstico da dor de crescimento é essencialmente clínico e de exclusão. Se a história do paciente se encaixa no padrão e o exame físico é normal, exames de imagem ou de sangue não são necessários.

Como faço o exame físico ortopédico nesses casos:

  • avaliação da marcha
  • inspeção dos membros inferiores
  • palpação óssea e articular
  • avaliação da amplitude de movimento articular
  • testes de estabilidade ligamentar
  • avaliação neurovascular.

Todos os achados acima devem ser normais nas dores do crescimento.


No entanto, o especialista deve descartar outras patologias comuns da infância. A tabela abaixo resume as principais condições que entram no diagnóstico diferencial:


Condição Localização Características clínicas
Dor de crescimento Coxas, panturrilha e atrás do joelho Dor muscular noturna, exame físico e marcha normais
Doença de Osgood Schlatter Tuberosidade da tíbia (abaixo do joelho) Dor unilateral, piora com atividade física, comum em adolescentes atletas
Doença de Sever Calcanhar Dor no calcanhar, piora com atividade
Doença de Legg Calvé Perthes Quadril Claudicação e limita rotação do quadril
Episiólise Quadril Mais comum em adolescentes obesos, causa claudicação importante

Sinais de Alerta: Quando Procurar o Ortopedista?

Se o seu filho apresentar qualquer um dos sintomas abaixo, a investigação médica deve ser aprofundada, pois estes sinais não fazem parte da dor de crescimento:


  • Dor em apenas uma das pernas (unilateral) ou fixa em um único ponto ósseo;
  • Inchaço, vermelhidão ou calor nas articulações (joelhos, tornozelos, quadris);
  • Criança mancando (claudicação) ou recusando-se a caminhar;
  • Presença de febre, perda de peso ou cansaço excessivo;
  • Dor persistente que piora progressivamente durante o dia.


Como Aliviar a Dor de Crescimento

O tratamento é totalmente conservador e focado no alívio dos sintomas durante as crises noturnas. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, o manejo adequado traz alívio rápido:


  • Massagem Local: Massagens suaves na região dolorida resolvem ou aliviam cerca de 95% dos casos;
  • Calor Local: Bolsas de água morna ou banhos mornos antes de dormir ajudam a relaxar a musculatura;
  • Alongamentos: Exercícios leves de alongamento dos membros inferiores no final do dia previnem a intensidade das crises.


Se as massagens não funcionarem e a dor estiver atrapalhando muito o sono da criança, medicações podem ser avaliadas:

  • Analgésicos comuns: o uso de anti-inflamatórios ou analgésicos de venda livre (como ibuprofeno ou paracetamol) só é necessário em cerca de 33% dos casos;
  • Destaque: ibuprofeno é frequentemente apontado como primeira escolha para dores musculoesqueléticas na infância devido à sua dupla ação analgésica e anti-inflamatória.


O que esperar?

O prognóstico é excelente. A dor de crescimento é uma condição autolimitada, o que significa que ela desaparecerá sozinha com o tempo (geralmente até o final da infância).

Ela não deixa nenhuma sequela ortopédica, não prejudica o desenvolvimento da criança nem do crescimento e não exige restrição de esportes ou brincadeiras. Procedimentos invasivos ou cirurgias nunca são indicados para este diagnóstico. O papel dos pais e médicos é, acima de tudo, acolher e tranquilizar a criança.

Referências:

Weiser P. Approach to the patient with noninflammatory musculoskeletal pain. Pediatr Clin North Am. 2012.

Liao CY, Wang LC, Lee JH, et al. Clinical, laboratory characteristics and growth outcomes of children with growing pains. Sci Rep. 2022.

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Lehman PJ, Carl RL. Growing pains. Sports Health. 2017.

Achar S, Yamanaka J. Apophysitis and osteochondrosis: common causes of pain in growing bones. Am Fam Physician. 2019.

Sen ES, Clarke SL, Ramanan AV. The child with joint pain in primary care. Best Pract Res Clin Rheumatol. 2014.

Morancie NA, Helton MR. Evaluating the child with a limp. Am Fam Physician. 2023.

Ali S, Klassen TP, Candelaria P, et al. Acetaminophen (paracetamol) or opioid analgesia added to ibuprofen for children's musculoskeletal injury. JAMA. 2026.

Autora e responsável técnica: Dra. Karin Coca Aguilar CRM SP 214165 | RQE 125200 | Membro SBOT e SBOP

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